quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Fantasma Ciclista

Num Outro-Mundo-que-não-Este existia um fantasma que cedo pela manhã adorava passear de bicicleta pela floresta.
Certo dia, muito distraído, esqueceu-se dos óculos de sol numa gaveta do armário alto  onde vivia. Habituados à escuridão cerrada, os fantasmas quando decidem sair de dia à rua precisam de proteger os seus olhos demasiado sensíveis. Este descuido tornou a manhã deste espírito ciclista numa catástrofe tenebrosa. Em poucos segundos viveu um verdadeiro pé de vento!  Ao pedalar por um trilho muito, muito íngreme e muito vertiginoso foi fatalmente encadeado pelo brilho insuportável do Sol que acabara de acordar no horizonte.



"SOCOOOORRO!!! Não vejo o caminho!!".

Tropeçou numa pedra bicuda, perdeu o sapato, magoou o pé, rasgou o lençol e trincou a língua. Por momentos recuperou o equilíbrio, mas com tantas peripécias não viu um galho que se aventurava à sua frente.

"POOOC!!"

Deu-lhe uma grande carolada com o capacete. Assustou-se tanto com esta colisão que perdeu o controle da sua bicicleta. Esta escapou-se por entre as suas fantasmagóricas mãos indo parar tão longe que nunca mais alguma vez foi vista.
O fantasma ciclista encontrava-se agora no chão, deitado de barriga para cima e cheio de tonturas, cócegas e comichões. Tentou levantar-se, mas alguma coisa prendia-lhe os movimentos e quanto mais tentava soltar-se dela mais ... espirrava

"ATCHIMMMMMM!!"
"AAAAATCHIIIIIMMMMMM!!!"

"Santinho!!" disse uma aranha peluda que descia do seu ombro”.


Nesta desgraça tão disparatada o fantasma acabou por atravessar uma frágil e muito complexa teia de aranha. Jamais algum fantasma do Outro-Mundo-que-não-Este foi alérgico à fina seda com que as aranhas tecem as teias ... À excepção do fantasma ciclista, que desde bebé espirrava durante três dias seguidos sempre que tocava numa teia.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Breviário de um medo


Ela era brava.
Muitos assim a julgavam. Arrojada, demarcada, feroz. Mas, apesar da complexa teia de nervos ágeis e da fronte intrépida e resoluta com que esses tantos a distinguiam, ela escondia um medo descomedido. Um bizarro temor que tempestuosamente violava a sua lucidez e todo o ar do peito.

Era uma angustia vil e bem primitiva o pavor que sentia pela fugacidade da água.
Gota por gota, essa passageira sem corpo, sem afectos, lembrava-lhe que a efemeridade, a brevidade das coisas, estende docemente a mão ao esquecimento. E acarinha-o a seu colo com a ternura de uma mãe. 

Temia tanto mais a brevidade dessa substância que pouco se deixa tactear, fixar ou conhecer, do que qualquer outra circunstância impetuosa que lhe ameaçasse verdadeiramente o corpo. Ou a vida.
Uma noite, mesmo tendo pressentido no breu denso de um arvoredo os olhos de um animal medonho, precipitou-se ingenuamente por um caminho. Uns passos seguintes, assaltada por vigorosos latidos, veio a conhecer a severidade do medo físico. Em nenhum destes instantes, contudo, daqueles ínfimos mas muito longos instantes em que atravessou a dureza temperamental do cão e o teve demasiado próximo, farejando-lhe a perna, igualou a aflição que sentia na evasão repentina das coisas.

O transitório, aquilo que não percorre o vagar dedicando-se atenciosamente ao mundo, abstrai-se facilmente no descuido. Por isso, perturbava-lhe tanto a indolente passagem da água na ribeira vizinha,   alheia aos cânticos grosseiros das rãs e à textura das pedras como a fuga repentina das chuvadas pelo solo nos campos.

A  leviandade e a desatenção da água,  a imaterialidade e a sua pouca presença, constituem oportunidades primorosas para aquilo que procuramos ignorar ou fazer desaparecer. Como num mergulho, é no silêncio leal desta cúmplice, impassível a súplicas e ao passar do tempo, que muitos escondem segredos, vergonhas ou arrependimentos. Lançam-lhe cadáveres e as armas que lhes sabotaram a vida. Na água, estes permanecerão inconsequentemente ancorados.
E por fim, esquecidos.


domingo, 30 de abril de 2017

Ciano-verde. A minha avó

Quando morreste fechei-te as mãos em redor de um pedra turquesa. Confiei entre as tuas palmas transparentes uma pedrinha redonda, azul firmamento, polida com o mesmo cuidado com que protegias-me as mãos pequenas ao caminharmos pela rua. 
Nesse dia, para ti por fim sereno, guardei a pedra no casulo dos teus dedos que dormiam sobre um peito anónimo, inerte. Aquele que já tinha sido o teu peito. 
Não cheguei a dizer-te, mas estas turquesas que colocavas ao pescoço eram pontos luzentes de magia num mundo estranho a ambas. Éramos duas meninas e eu encontrava ainda o Sol e algumas estrelas.
As pedras de Hator e Ísis, deusas cujo colo são o trono real do céu que é afinal o ventre imenso de uma deusa mãe maior, são também amuleto de Yemoja, rainha africana dos oceanos. E é aqui, avó, por estes quatro cantos do universo, diante da vastidão azul levemente esverdeado das tuas pedras mágicas, que sei que cuidas ainda das minhas mãos. As minhas mãos ainda tão pequenas.

terça-feira, 18 de abril de 2017

terra-musgo


Com a audácia das plantas de meia luz que se determinam a vencer paredes, ela viveu longos anos com um desafino nos pulmões. Um piado grosseiro que não debilitava porém as gavinhas que a sustentavam viva.
Ainda jovem, alguém contou-lhe que a sua falta de saúde surgia por não permitir que o sol vigorasse no interior do peito. Depois disso, ela veio a distinguir com nitidez o cheiro escorregadiço a musgo quando suspirava e o amarelo frio do mofo que se estendia para além dos seus ossos.

Nunca entendeu que esse alguém se referia a uma crónica ausência de paixão em si.



Bebia então pela manhã uma forte infusão de hera-estrela para a sua bronquite. Enquanto sentia o calor da bebida estalar-lhe a pele, imaginava a planta verdejar e cercar o seu pequeno tórax, esperançando que a hera respirasse por um sol, como ela jamais conseguiria fazer.



sábado, 18 de março de 2017


Diziam dela que tinha um "bom coração" por sentir no seu, tão fortemente, as urgências do coração de outros.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O+

Como tem vindo a ser hábito, também naquele momento ela dedicou-se em entregar tudo de si. Costuma pensar que se permite sentir demasiadamente a força da presença. Não encontra melhor expressão para definir aquela forma de ser inteiramente. Tantas vezes até chega a entregar a sua própria pele às circunstâncias. Esfola-se.

"Estou Presente."
E por essa razão, muitas vezes, ela esgota-se.

Foi o que sucedeu naquele quase Agosto de 42ºC em Lisboa.

Viveram poderosamente o parto. Vigorosos e assertivos. Ela e o seu filhinho, aquele bebé tão grande que cheirava a flores adocicadas já a seu peito.
Como qualquer fêmea ávida pela sua cria, beijou-o insanamente quando ele saiu de si. Beijou-o, como qualquer animal fareja finalmente um seu novo ser, fixando aquela nova matéria: um novo toque. Um novo odor.
"Então eras tu, meu amor, quem aqui já viva."

Minutos mais tarde, atrás de um curto cordão umbilical (quando se liga a alguém ela não permite grandes distâncias) nasceu a placenta. Agradeceu-lhe a dedicação e despediu-se. Foi neste instante que a morte estendeu-se pelo quarto de mãos demasiado ágeis e ensanguentadas. Apresentou-se distintivamente:
- "A hipotonia uterina consiste numa ineficaz contração do útero após a expulsão da placenta. Nesta condição, os vasos uterinos que uniam estes dois seres ficarão abertos, expostos, e suceder-se-á uma intensa perda de sangue materno."

Assim foi.
Sentiu uma tontura pulsar para fora de si uma torrente de sangue e esvaiu-se num forte cheiro a ferrugem, enquanto procurava uns braços em quem confiar o filho. Conheceu a hemorragia puerperal precoce duas horas depois de o filho nascer. Sem razões clínicas. Sem justificações lógicas senão aquelas que mais tarde construiu.

Ela esgotou-se.
Hemoglobina < 7 g/dl.
Leucócitos, eritrócitos e plaquetas. Plasma.

Depois de um prolongado desmaio, e de procurar sequiosamente a presença do bebé, vê chegar sangue fresco embalado a vácuo. Uma substância viscosa que integrou o sistema vascular de outro alguém. Que nutriu e oxigenou as suas células. Que participou da sua vida: ouviu a sua música, dançou. Emocionou-se. Lutou. Amou.
Aquele sangue que circulou por outras veias com o frenético pulsar de um coração (que ela espera apaixonado) entra na sua vida, gota a gota, através do seu braço.
Gota a gota. Gota a gota.
Durante toda a noite, gota a gota, 450 ml de cada vez.




Não há dia que ela viva sem reviver esta sua história.
Esta história que é tanto minha como de quem não sabe ser sua: quem doou-me o seu sangue.


Obrigada.
(Verdadeiramente, do fundo do meu coração)