terça-feira, 18 de abril de 2017

terra-musgo


Com a audácia das plantas de meia luz que se determinam a vencer paredes, ela viveu longos anos com um desafino nos pulmões. Um piado grosseiro que não debilitava porém as gavinhas que a sustentavam viva.
Alguém contou-lhe que a sua falta de saúde surgia por não permitir que o sol vigorasse no interior do peito. Depois disso, ela veio a distinguir com nitidez o cheiro escorregadiço a musgo quando suspirava.


Nunca entendeu que se referiam a uma ausência crónica de paixão.

Bebia assim pela manhã uma forte infusão de hera-estrela para a sua bronquite. Enquanto sentia o calor da bebida estalar pela pele, imaginava a planta verdejar e cercar o seu tórax. Tinha em esperança que a hera respirasse por um sol, como ela jamais conseguiria fazer.


sábado, 18 de março de 2017


Diziam dela que tinha um "bom coração" por sentir no seu, tão fortemente, as urgências do coração de outros.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O+

Como tem vindo a ser hábito, também naquele momento ela dedicou-se em entregar tudo de si. Costuma pensar que se permite sentir demasiadamente a força da presença. Não encontra melhor expressão para definir aquela forma de ser inteiramente.
Muitas vezes, chega a entregar a sua própria pele às circunstâncias.
"Estou Presente."
E por essa razão, muitas vezes, ela esgota-se.

Foi o que sucedeu naquele quase Agosto de 42ºC em Lisboa.

Viveram poderosamente o parto. Vigorosos e assertivos. Ela e o seu filhinho, aquele bebé tão grande que cheirava a flores adocicadas já a seu peito.
Como qualquer fêmea ávida pela sua cria, beijou-o insanamente quando ele saiu de si. Beijou-o, como qualquer animal fareja finalmente um seu novo ser, fixando aquela nova matéria: um novo toque. Um novo odor.
"Então, eras tu."

Minutos mais tarde, atrás de um curto cordão umbilical (quando se liga a alguém ela não permite grandes distâncias) nasceu a placenta.  Agradeceu-lhe a dedicação e despediu-se. Foi neste instante que a morte estendeu-se pelo quarto de mãos demasiado ágeis e ensanguentadas. Apresentou-se distintivamente:
- "A hipotonia uterina consiste numa ineficaz contração do útero após a expulsão da placenta. Nesta condição, os vasos uterinos que uniam estes dois seres ficarão abertos, expostos, e suceder-se-á uma intensa perda de sangue materno."
Assim foi.
Sentiu uma tontura pulsar para fora de si uma torrente de sangue e esvaiu-se num forte cheiro a ferrugem, enquanto procurava uns braços em quem confiar o filho. Conheceu a hemorragia puerperal precoce duas horas depois de o filho nascer. Sem razões clínicas. Sem justificações lógicas senão aquelas que mais tarde construiu.


Ela esgotou-se.


Hemoglobina < 7 g/dl.

Leucócitos, eritrócitos e plaquetas. Plasma.

Depois de um prolongado desmaio, e de procurar sequiosamente a presença do bebé, vê chegar sangue fresco embalado a vácuo. Uma substância viscosa que integrou o sistema vascular de outro alguém. Que nutriu e oxigenou as suas células. Que participou da sua vida: ouviu a sua música, dançou. Emocionou-se. Lutou. Amou.
Aquele sangue que circulou por outras veias com o frenético pulsar de um coração (que ela espera apaixonado) entra na sua vida, gota a gota, através do seu braço.
Gota a gota. Gota a gota.
Durante toda a noite, gota a gota, 450 ml de cada vez.




Não há dia que ela viva sem reviver esta sua história.
Esta história que é tanto minha como de quem não sabe ser sua: quem doou-me o seu sangue.


Obrigada.
(Verdadeiramente, do fundo do meu coração)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Floresta de Sansa


Desde bebé que visito uma floresta fantástica cujo nome é Sansa.



Esse lugar especial fica perto de minha casa, bem no centro de uma cidade muito barulhenta. O que torna esta floresta especial é que lá só entram os melhores sons, aqueles cheios de harmonia. Os ruídos estridentes e os barulhos perturbadores não sabem passar o intrincado labirinto dos troncos das árvores e por isso nunca os encontramos por lá.

Na floresta de Sansa quando fazemos silêncio conseguimos ouvir os pássaros dedilhar música. Com o silêncio e tranquilidade aparecerem para cumprimentar-nos mochos, esquilos, raposas cor de fogo que nos fintam com os seus grandes olhos de avelãs e falcões que sobrevoam as copas das árvores que sabem cantar.
As árvores, com os seus grandes galhos verde-seco de onde é possível ver o rio, assobiam músicas quando o vento sopra nas colinas e os arbustos, com as suas florinhas brancas e encarnadas, cantam em coro afinados com a luz brilhante da manhã. As violetas e as papoilas tocam todo o dia instrumentos delicados que nos fazem lembrar harpas angelicais.
Sansa é o nome de um instrumento musical em madeira e metal que a minha mãe comprou numa feira de Verão. Um lamelofone originário de África, também conhecido por Mbira ou Kalimba. O nome depende da tribo que o toca.


Esse instrumento tem um som tão encantador como mágico. Um som como aqueles que escutamos na floresta que visito desde bebé.


sábado, 21 de janeiro de 2017

Uma nortada

Com os anos aprendeu a conviver com o presságio que a interrompia continuamente. Ela sabia que iria morrer sozinha. 

Por algum motivo que se impôs com uma inexplicável força no seu percurso, passou grande parte da sua vida sozinha. Habituou-se a passar dias e dias sem falar e sem fixar o olhar de alguém. 

Vivia tão só. 
 



Recordava com tremenda dor as mãos meigas de sua mãe mimarem-lhe a cara e da paixão de um antigo amante quando se encontravam no alpendre. Sentia que jamais teria iguais companheiros de vida. Ela sabia bem que tudo o que se sente é também bastante real.
Certa tarde, ouviu estas suas duas vozes conversarem melodiosamente numa pequena sala de arrumos. Trémula, abriu a porta expectante. Encontrou apenas pela vidraça do quarto uma tempestade carregada que se aproximava da quinta vinda do Norte. 

Nesse instante não aguentou mais tantas ausências. 



Sentiu uma folha amassar-se no peito e precisou de ar. Correu pelo campo até cair esgotada, sem fôlego e com dores agudas nas pernas e no ventre.
Qualquer dor física torna-se insignificante diante de uma dor emocional.



Era Inverno. A noite caiu cedo e trouxe consigo mais frio e chuva.

Não teve força ou motivação para erguer-se sozinha. Precisou tanto de alguém nesse instante como terá precisado durante quase toda a sua vida.
Permaneceu imóvel por horas enquanto sentia a pele queimar sobre a terra gelada e pela impetuosa tempestade. A queimadura do frio não compete com a que deixa a solidão pelo corpo. Essa dor é soberana.

Ninguém deu pela sua falta e jamais alguém a procurou. 
Foi encontrada por um pastor quando o sol brilhou duas semanas depois.

Morreu sozinha, porque todos morremos. 
Mas a morte somente lembrou-se de a tocar porque a solidão chamou alto por ela.  E é disso, precisamente, que todos temos tanto medo afinal.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

As princezinhas e a minha lição com a Elsa

No dia em que o meu filho cantou em casa a música do filme Frozen quem congelou fui eu.

Desde a infância que não gosto dos filmes musicais da Disney com mulheres que cantam e suspiram por um príncipe (rico, influente e de queixo quadrado), prendendo a sua realização pessoal unicamente no casamento com o homem que as vem salvar. Estes filmes mexem verdadeiramente com o meu sistema nervoso pelas mensagens misógenas e pelos estereótipos de género, subliminares ou não, que encerram. Nunca me identifiquei com esse mundo "encantado" onde domina a aspiração do casamento libertador e onde os papeis atribuídos às mulheres repugnam-me verdadeiramente: as princesas lindas, bondosas e passivas VS as bruxas e as irmãs, invejosas solteironas, fora dos padrões de beleza hegemónicos, que recorrem a truques, artimanhas e feitiços para prejudicar as belas (ou seja, evitar que os príncipes se apaixonem por elas).  Esta polaridade é demasiado perversa e molda todos os dias a ideia de que o mundo feminino é composto pelas bonitinhas e pelas outras (as gordas, mal encaradas e malvadas). Neste plano constrói-se a ideia de que as mulheres são por natureza invejosas, intriguistas, competem frequentemente pela atenção de um homem e só se dão entre si por razões interesseiras. Não tolero e não alimento esta premissa e custa-me que seja difundida em alguns desenhos animados (que comparo aos enredos paupérrimos das telenovelas da noite). 


Hoje reconheço que em criança eram já estas algumas das questões que me perturbavam nos musicais, mas não tinha como enquadra-las.  Assim, naquele preciso instante em que ouvi  pela voz do meu filho a música do Frozen revivi a irritação que sentia aos 7 ou 8 anos no recreio quando cantarolavam a música da Pequena Sereia. 
O filme da Pequena Sereia indignava-me tanto que recusava-me a vê-lo (dava em repeat no refeitório da escola à tardinha). Ariel, obcecada pelo príncipe e pela ideia de ser salva pelo "amor verdadeiro" (*) abdicou da sua família e amigos, alterou radicalmente o seu corpo, perdeu a voz e deixou de cantar, renegando esse talento e paixão. Modificou drasticamente toda a sua identidade para se encaixar no estilo de vida do príncipe. Atitude, infelizmente, ainda tão comum mesmo fora dos ecrãs. 
Com tantas alterações, a menina que eu fui pensava: "Depois dessas mudanças todas ela já não é a Ariel verdadeira; é outra pessoa qualquer! O príncipe assim vai gostar de outra coisa que não é ela de verdade!!".  Não entendia porque teria alguém de se sujeitar a tanto para viver um amor. Implicaria assim tanto encontrar um "amor verdadeiro"? Seria então aquele amor verdadeiramente "verdadeiro" ou antes um outro onde ela se pudesse assumir verdadeiramente na sua identidade? Negociar com uma bruxa as condições para ser amada e pedir um feitiço para que isso aconteça é também bastante perturbador.
*(A expressão "Amor Verdadeiro" é bem comum nestes filmes e merecia a abertura de outro texto para reflexão...) 



Anos mais tarde revi o filme enquanto tomava conta de um primo. Encontrei todas as irritações e mais algumas, mas reparei que Ariel por outro lado tem muita garra ao enfrentar o pesado domínio do seu pai. Por outro, uma das cenas da bruxa Úrsula, aquela que mais me perturbava em menina, é ainda mais assustadora de tão sexista que é. 

"(...)

Sabe quem é a mais querida?
A garota retraída
E só as bem quietinhas vão casar!"
(vê-la completa aqui)

Foi com este exemplo que cresci a abominar este tipo de filmes. Não tenho qualquer mágoa nisso, até algum orgulho, confesso... Mas... agora tinha na sala o meu filho a cantar em plenos pulmões a música de um. O que fazer !??
Percebi que na escola o Frozen é frequentemente tema de brincadeira. Posto isto, e como não acredito na censura como protecção, mas antes na abertura e na exposição clara e pertinente daquilo que nos perturba (e sou absolutamente crente na sabedoria inata do meu filho), decidi que não podia adiar aquele filme e que seria positivo vê-lo juntos de forma a fazer um enquadramento sensato (e explicar assim algumas das minhas inquietações feministas).

Por coincidência ou não, o filme passou dias depois na televisão. 

No final, depois de tanta especulação e ar de frete que fiz ao pensar no conteúdo do filme, não o achei assim tão mau como imaginava. Ainda que cheio de "tontarias principescas", apilhado de padrões estéticos deploráveis e com um enredo superficial e pessimamente mal desenvolvido, marcou-me bastante a história da Elsa que senti afinal ser um bom exemplo para o meu filho - apesar de precisar de uma explicação bem sublinhada, senão passava-lhe tudo ao lado. 

Elsa é uma princesa (coroada rainha enquanto solteira: Uau!) que se escondia no quarto por ser diferente, com poderes fora do comum. Esses poderes eram descontrolados e prejudiciais enquanto vivia revoltada com eles.  Um dia, depois de ter revelado em público sem querer a sua magnitude, e de ter assustado uma vila inteira, acabou por fugir e isolar-se. E foi nesta altura que comecei a emocionar-me. Longe das expectativas e pressões sociais,  Elsa abraçou os seus poderes sobre o gelo e ganhou um domínio espantoso sobre eles. Depois de se aceitar, esta mulher construiu um castelo de gelo maravilhoso para habitar.
Achei este castelo um metáfora interessantíssima e para mim fez o filme. 




Para além desta mensagem, importa ainda salientar a desconstrução do tal conceito de "amor verdadeiro que salva e cura" não estar aqui associado ao amor entre um casal, mas entre irmãs.

Continuo a ter as minhas preferências em termos de filmes infantis e achar este bem tolinho, mas confesso que a Elsa deu-me uma valente lição de humildade por ter quase feito uma birra quando a ouvi pela voz do Simão, sem na verdade conhecer o filme.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Me, Myself & I



Inauguro este novo ciclo com uma vozinha interior que me sussurra constantemente: "Desliga-te. Afasta-te."
Vivo submersa no barulho da cidade e dos seus inúmeros ecos e ruídos estridentes, abruptos ou surdos, no emaranhado do trânsito, em densas multidões, muitas indecisões e demasiadas solicitações e alertas dos aparelhos electrónicos. Junto a todo esse excesso de estímulos e desorientações a exigência e hipervigilância de quem cuida com poucos apoios de um filhinho de 3 anos e um ano passado pleno em poderosos encontros e desencontros que precisam de ser balanceados. Sinto também que a sobreposição de papéis sociais e familiares e o tique-taque diário embaciam, esmagam, o nosso ser espontâneo. E tantas vezes temos de o observar, escutar e libertar pelo nosso equilíbrio.

Nestas alturas costumo pensar que preciso de "desassombrar" pois sinto carregar e levar para casa todos os dias assombros que não só os meus. E os meus precisam de ser bem cuidados.
Desde cedo que me lembro desta minha forte necessidade de retiro que tem sido descurada nos últimos anos. Se me exponho em demasia, sem tempo para purgar-me, sinto desafiar os meus limites intelectuais e emocionais. Talvez isto exista por ser filha única e ter passado longas e riquíssimas horas de isolamento onde sonhava, lia, escrevia e construía-me aos pouquinhos, em silêncio e sem pressões sociais. Construía-me, sobretudo, com o meu vagar.  Até pode não estar relacionado, mas é desses dias que me tenho recordado.
Têm chamado a estes momentos "Solitude". Não é solidão, é uma necessidade individual de retiro. E é por lá que andarei nos próximos dias a trabalhar naquilo que preciso de deixar no ciclo velho e naquilo que gostaria de viver no ciclo novo. 
Provavelmente a próxima lua nova, vigorosa aquariana, marque o renascimento do fulgor que sinto ter-se escapado pelas entradas do Inverno. Provavelmente antes, provavelmente depois. Quem sabe? Por esse motivo poderei não estar nos próximos tempos tão atenta a mensagens ou mesmo a telefonemas vossos. Tenham isso em consideração; a seu tempo responderei a todas.

Até breve!
Um abraço